Teatro Caixa Preta: palco e sala de aula que luta para se manter aberto

Bernardo Abbad

Teatro Caixa Preta: palco e sala de aula que luta para se manter aberto
No dia 5 de abril de 1988, uma grande caixa passava a ganhar vida no campus da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). De volta ao Brasil, após dois anos de estudos nos Estados Unidos, entre 1978 e 1980, o professor do Departamento de Artes Cênicas da universidade, Irion Nolasco, trouxe consigo uma ideia inovadora. Tratava-se da criação de uma sala de teatro no molde das que se popularizavam na Europa na época: as chamadas Black Box ou Caixas Pretas.

Diferente do formato tradicional, à italiana, a Caixa Preta propõe um espaço multiuso, permitindo várias configurações cenográficas para teatro, arte, música e exposições de vídeo. Também conhecido como teatro experimental, o espaço busca uma aproximação do público com a ação que ocorre no palco, e os assentos podem ser trocados de lugar, o que dá aos produtores a liberdade de criarem efeitos e ações em maior contato com a audiência.

Foi então que, em 1980, Irion Nolasco, junto às professoras Beatriz Pippi e Maria Lúcia Raimundo, que compunham o Departamento de Artes Cênicas da UFSM, iniciaram o utópico projeto de construir o primeiro espaço teatral dessa natureza no Rio Grande do Sul, que tornou-se realidade oito anos depois.

Para os estudantes dos cursos do Centro de Artes e Letras (CAL) da universidade, o Teatro Caixa Preta – Espaço Rozane Cardoso, que funciona anexo ao prédio 40 do campus de Camobi, tornou-se um espaço onde se pode construir e criar. O mural em uma das suas paredes externas, produzido pelo artista chileno e professor aposentado da UFSM, Juan Amoretti, é mais um dos belos cenários da universidade. Prestes a completar 35 anos de história, o teatro é um lugar que rompe as paredes das salas de aula e permite colocar em prática o que se aprende dentro delas.

SEGUNDA CASA

Os professores Gil Negreiros e Raquel Guerra encabeçam, com os alunos, a luta pela reabertura total do Caixa Preta. Fotos: Nathália Schneider (Diário)

O envolvimento da atual diretora do espaço, a professora Raquel Guerra, 40 anos, com o Teatro Caixa Preta, começou quando ela era estudante da UFSM. Nascida em Marau e criada em Passo Fundo, ela encontrou na Cidade Cultura a oportunidade de mergulhar no teatro, uma de suas grandes paixões. Na época, ela foi aluna de Rozane Cardoso, pioneira no desenvolvimento da palhaçaria em Santa Maria e no Estado e que dá nome ao local.

– Depois, quando voltei à UFSM como professora, esse espaço já estava com um pouco mais de dificuldades para a manutenção do funcionamento. Tivemos um período de deterioração e até de fechamento, que voltou a ocorrer na pandemia. Mas em 2022, a partir de setembro e outubro, começamos a reabrir para atividades mais pedagógicas, com aulas e práticas e, em novembro, veio a reativação parcial, com a possibilidade de voltar a receber o público – conta Raquel.

Para a professora, a história do espaço é muito bonita, pois, apesar de o teatro ter vivido longos períodos de dificuldade, a comunidade artística do CAL da UFSM sempre batalhou para manter o Caixa Preta em funcionamento.

Para que a caixa volte a se abrir

Após mais de três décadas em funcionamento, o Caixa Preta precisou ser totalmente interditado há quase quatro anos (foto acima), quando a aluna Viviane Padilha, estudante de Artes Cênicas, caiu da escada enquanto arrumava os refletores para o ensaio de um espetáculo em 2019. O incidente evidenciou a falta de estrutura adequada do local.

Conforme o professor do Departamento de Letras Vernáculas e atual diretor do CAL, Gil Roberto Costa Negreiros, 47 anos, o Caixa Preta, além de ser um espaço histórico na UFSM, é fundamental para a integração dos curso do Centro e com a comunidade de Santa Maria e região, uma vez que não há espaço semelhante no Rio Grande do Sul.

– Queremos reabrir esse espaço com total segurança, para poder voltar a oferecer arte e cultura à comunidade. Penso que nós, como servidores públicos, e o CAL, como um centro extensivo, temos essa obrigação. Iremos atuar fortemente junto à Reitoria para que tudo isso possa ser oferecido à comunidade santa-mariense e região de maneira integral o mais breve possível – informa o diretor.

Raquel Guerra reforça que as principais questões que estão sendo priorizadas nesse movimento de reabertura são, justamente, a segurança e a acessibilidade. Segundo ela, o local já recebeu visitas da equipe de arquitetos e engenheiros da Pró-Reitoria de Infraestrutura (Proinfra) para viabilizar as melhorias necessárias:

– A principal meta para 2023 é qualificar a acessibilidade e melhorar as questões de segurança do trabalho. Nós já estamos atuando com todas as medidas necessárias, com andaimes, guarda-corpos e Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), para que tanto nós, trabalhadores internos e externos, quanto os nossos estudantes já possam atuar e aprender a trabalhar com segurança.

Gil explica que, mesmo com todos os problemas, a recém-criada Comissão do Caixa Preta resolveu abrir, com carga reduzida, e oferecer a oportunidade de os alunos poderem praticar o que é aprendido em sala de aula e, também, o público poder conferir o resultado.

– Nós faremos esses investimentos necessários. Estamos procurando também parcerias público-privadas e junto aos órgãos de fomento governamentais. O espaço precisa de muitas melhorias, mas estamos trabalhando para solucionar essas questões. – aponta o diretor.

Caixa preta, caixa aberta

Para auxiliar na reativação total do espaço, a comunidade do CAL se uniu na criação de uma “vaquinha”, campanha de arrecadação de recursos para auxiliar na reativação do local. A campanha “Caixa Preta – Caixa Aberta” visa levantar fundos em prol da manutenção das atividades no teatro.O projeto tem como meta arrecadar o valor de R$20 mil, que serão destinados à aquisição de equipamentos de segurança para auxiliar os estudantes dos cursos de Artes Cênicas, Dança e Teatro, no desenvolvimento de práticas em laboratório que envolvem atividade em altura e com eletricidade, tais como a montagem de cenário, som, luz e equipamentos circenses aéreos.

Conforme a diretora Raquel Guerra, a campanha, que não tem data de encerramento, reforça o engajamento dos alunos e da comunidade do CAL em oferecer cultura à comunidade:

– Estamos novamente na luta. Essa ação foi organizada pelos estudantes da disciplina de Legislação e Produção Teatral. Por meio da vaquinha, já conseguimos arrecadar valor para comprar uma mesa de luz e EPIs, que possibilitam uma montagem mais segura do sistema da iluminação teatral, por exemplo.

De volta para a caixa

O Teatro Caixa Preta também é cheio de histórias que ajudam a explicar a importância e necessidade de funcionamento de um local como esse. A atriz e professora de teatro Luiza Lemos de Rossi, 34 anos, também é iluminadora profissional, graças à experiência como bolsista no Caixa Preta quando foi estudante no CAL, de 2008 a 2012. Hoje, mais de uma década depois, ela retorna ao espaço como trabalhadora, auxiliando na montagem de luz dos espetáculos da reabertura. Luiza também conta que a premiada companhia santa-mariense Teatro Porque Não? de Santa Maria (foto acima), do qual ela faz parte como atriz, também se formou no Caixa:

– Nos conhecemos aqui dentro. Éramos bolsistas e tínhamos esse vínculo. Era uma casa para nós, temos muito carinho por esse espaço. Gerou muita dor ver esse período que ele ficou mais abandonado, por mais que não estivéssemos mais aqui. Então, agora, poder sentir esse espaço abrindo de novo, por meio da luta da Raquel, do Gil, dos estudantes, é incrível.

A iluminadora reforça que, por ser um teatro-laboratório, o espaço é de extrema importância para os alunos, uma vez que o curso de Artes Cênicas é parte teoria e parte prática e o Caixa Preta oferece uma vivência muito próxima da real:

– Ter contato com esse espaço, onde você pendura os cenários, se maquia no camarim, apresenta para o público, é uma experiência que não tem preço. Uma coisa é ler e outra é botar a mão na massa, subir no andaime e escolher o refletor, direcionando e aprendendo ao fazer. Não tem como imaginar uma formação completa sem essa vivência – conta Luiza de Rossi.

Nos últimos meses, a profissional, que faz iluminação para espetáculos teatrais, de música, dança e instalações de artes visuais, trabalhou em recitais de conclusão de curso.

– Em espetáculos como este, por exemplo, eu assisto aos ensaios, escuto as músicas, percebo e sinto como elas interagem conosco e imagino as luzes, as cores, ângulos e movimentos de luz, para que aquilo tenha uma composição visual. No dia da montagem, passamos um tempo no Teatro posicionando, definindo e, depois, afinamos, onde são escolhidas as cores e intensidades de luz durante o recital – finaliza.

Breve reabertura da caixa

Em 2016, o Núcleo de Segurança do Trabalho da Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas (PROGEP) fez um parecer técnico no qual foi constatado que o teatro estava em desacordo com as normas de segurança vigentes. Em 2019, passou a funcionar parcialmente, recebendo apenas ensaios e aulas, mas não houve montagem de espetáculos, após o acidente com a estudante. Em abril de 2020, com a suspensão das aulas presenciais devido à pandemia da Covid-19, o espaço cultural multiuso ficou completamente fechado.

No segundo semestre de 2022, com o retorno dos estudantes ao campus da UFSM, práticas pedagógicas voltaram a ser realizadas no Caixa Preta e, em novembro, com o evento Novas Tríades – Semana da Música Contemporânea no RS, o público já pôde ocupar o teatro. Ao ser questionado sobre a decisão pela reabertura parcial, mesmo com a necessidade de algumas melhorias, o diretor do CAL, Gil Negreiros, aponta que, se fechado, o Caixa Preta continuaria se deteriorando:

– Senti que precisávamos abrir e colocá-lo em funcionamento, para que os problemas sejam resolvidos de acordo com o andamento dos trabalhos. Se deixarmos ele fechado, não só deixamos de oferecer arte e cultura para a comunidade, ele continua estragando. É como uma casa abandonada, que acaba por si só. Agora o espaço está voltando a ter vida, está alegre. Nós não iremos desistir do nosso sonho de ter um teatro bonito e agradável para toda a comunidade – finaliza o diretor.

O Teatro Caixa Preta – que já recebeu muitos artistas nacionais e internacionais das artes visuais, da dança, do teatro e da música ao longo de sua história – contou com uma programação intensa nesse momento de reabertura. Nos meses de dezembro e janeiro, foram realizadas mais de 35 apresentações de 20 espetáculos diferentes.

Em muitas delas, o público precisou ficar de fora, para respeitar as normas e a capacidade do local. Segundo a direção do teatro, foram mais de dois mil espectadores de Santa Maria e região, o que, para Raquel, também fala muito sobe a importância da extensão universitária.Entre os espetáculos apresentados nesse período, houve adaptações da tragédia grega Medeia e de Gota D’água, de Chico Buarque, palestras com egressos da universidade, mostra de técnicas circenses, recitais, exposições, monólogos e até mesmo uma versão do clássico O Auto da Compadecida.

Após o encerramento dessa agenda referente ao segundo semestre de 2022, o Teatro Caixa Preta passará por nova manutenção. Dessa forma, novos agendamentos de aulas práticas e apresentações de espetáculos ficarão momentaneamente suspensos. Segundo a direção do CAL, em breve devem ser divulgadas novas orientações de uso do espaço.

Conforme a orgulhosa diretora do Caixa Preta, Raquel Guerra, a grande programação em comemoração aos 35 anos do espaço também deve ser divulgada em breve. Mas, para ela, essa rápida reabertura já provou, mais uma vez, do que essa grande caixa de arte é capaz quando se abre para o mundo.

Encerramento com o palhaço Tico-Tico

O espetáculo que encerra a programação de reabertura do Teatro Caixa Preta ocorre neste domingo. Trata-se do monólogo Em Obras. O protagonista da peça é o palhaço Tico-Tico, interpretado pelo estudante do sexto semestre de Artes Cênicas Pedro Diana Moraes, 22 anos. Serão duas sessões gratuitas , às 17h e 19h.

– O palhaço Tico-Tico é um amigo meu. Ele parece muito comigo, mas tem o nariz um pouquinho maior. Ele vai preparar um espetáculo para um grande ator, que é o Pedro. E quando ele estiver na preparação, algumas coisas acontecem, porque o Tico-Tico tem um grande problema de concentração – brinca o ator e estudante.

Para Pedro, o Caixa Preta é importantíssimo como um espaço de cultura e saber tanto da UFSM como da cidade.

– Nós, como estudantes, temos como demonstrar o que fazemos aqui; que a universidade pública não é bagunça, é estudo. E passar isso para a população, para mim, é o mais importante. Sem o público somos nada – explica Pedro.

Em Obras tem a orientação do professor Daniel Plá e, conforme Pedro, a importância do Caixa Preta é justamente proporcionar esse espaço de troca entre espectador e público e aluno e professor.

– É um espaço onde pode ser feito tudo, ele é gigante. Tem as estruturas de ferro em cima, que permite a iluminação de qualquer maneira. Eu sei de gente que já fez chover aqui dentro. Passamos a conhecer uma linguagem da montagem teatral, que é muito importante para trabalharmos nos outros pontos de atuação. A gente sobe, desce, corre e monta, então o espaço traz a perspectiva para além da atuação. Conseguimos desenvolver habilidades a mais. Para mim, o Caixa Preta consegue proporcionar essas coisas tão importantes – finaliza Pedro Diana Moraes.

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